domingo, 9 de dezembro de 2012


Títulos que não entregam

Como os nomes de obras literárias podem guardar segredos preciosos sobre sua narrativa

Braulio Tavares

Um título deve atrair o leitor, mas não revelar demais sobre o texto. Todo mundo deve se lembrar das piadas sobre os títulos que certos filmes de mistério teriam recebido em Portugal: Psicose (1960), de Hitchcock, seria, lá, O Filho que Era a Mãe; o que conhecemos como Um Corpo que Cai (1958) teria sido intitulado A Mulher que Viveu Duas Vezes; e O Sol por Testemunha (1960) de René Clément, teria recebido o nome revelador de O Cadáver estava Embaixo do Barco, entregando de bandeja a última cena do filme. Claro que tudo isso é brincadeira, mas um título não pode entregar revelações antecipadas de sua trama.

Quem pega na livraria ou na biblioteca obras como A Morte de Artémio Cruz (Carlos Fuentes, 1962) ou A Morte de Ivan Ilitch (Leon Tolstoi, 1886) já sabe que o protagonista provavelmente morrerá mesmo, e que é essa morte que dá o tom do romance.  O mesmo vale para Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis, 1881) e para Crônica de uma Morte Anunciada (Gabriel García Márquez, 1981), em que a probabilidade ou quase certeza da morte do protagonista já vem anunciada desde a capa. O que significa, em última análise, que esta não é a informação do livro - a morte aqui não é objeto de mistério nem de suspense, é um ponto de partida para discutir outras coisas, e anunciá-la desde logo ajuda o leitor a aceitá-la como premissa.


No meu trabalho de antologista (publiquei seis antologias de contos fantásticos nos últimos nove anos, e tenho outras em preparo) preciso ler centenas de contos para, primeiro, construir um repertório e, segundo, montar cada antologia de acordo com o que ela pede. Isto implica ler, além dos títulos indicados pela crítica e da obra dos autores que já conheço, incontáveis listagens de contos obscuros para adivinhar, pelo título, o seu conteúdo. Claro que as referências não nos chegam só pelos títulos, mas um dos prazeres desse trabalho é descobrir contos de autores esquecidos, perdidos em revistas, coletâneas, volumes empoeirados de biblioteca. O que nos leva então (na impossibilidade de ler todos aqueles textos) a preferir este, e não os demais?


Inequívoco
Um título eficaz é aquele que identifica o texto de maneira inequívoca, ao fotografar com clareza o tema principal: "A Biblioteca de Babel" (Jorge Luis Borges, 1941), "Lúcia McCartney" (Rubem Fonseca, 1967), "Olhos de Cão Azul" (García Márquez, 1974), "A célebre rã saltadora do condado de Calaveras" (Mark Twain, 1865), "Bola de sebo" (Guy de Maupassant, 1880), "Malagueta, Perus e Bacanaço" (João Antonio, 1963)... Todos esses são títulos indissoluvelmente ligados aos textos. Não deve haver, em toda a literatura universal, dois contos com títulos assim.


Por outra, seria mais fácil esquecer ou confundir títulos como "Desenredo" (1967) ou "Sequência" (1962) de Guimarães Rosa, "Contrapartidas" (James Joyce, 1914), "História comum" (Machado de Assis, 1883) "Os fatos da vida" (Somerset Maugham, 1939)... Títulos que revelam pouco do conteúdo da história e ficam meio translúcidos, sem dizer nada. Revelam tão pouco que, sozinhos, não as evocam a quem já os tenha lido um dia. O conto de Machado, por exemplo, seria imediatamente reconhecido se se intitulasse "Eu, um alfinete".


Entre a possibilidade de revelar muito e a de revelar pouco, obras que envolvem algum mistério ou surpresa, como contos policiais ou de terror, têm que recorrer a uma variedade de soluções. Uma delas é indicar no título o ponto de partida do problema, não o desfecho: "A carta roubada" (Edgar Allan Poe, 1844) e "Um problema de xadrez" (Agatha Christie, 1924) dão indicação suficiente sobre o mistério, sem nem chegar perto da solução. 


Fato secundário
Outro recurso é destacar no título um elemento que, no final acaba se revelando de importância secundária na trama, mas que tem vividez suficiente para dar ao conto uma marca.  É o caso de "O escaravelho de ouro" (1843) ou "O barril de Amontillado" (1846), de Poe, histórias em que esses objetos aparecem como mero instrumento ou pretexto para algo mais complexo, e que o título não deixa transparecer. Um clássico do conto de mistério criminal, "As mãos do sr. Ottermole" (Thomas Burke, 1931), a história de um estrangulador londrino, consegue a façanha de revelar o nome do assassino no próprio título e manter até o penúltimo parágrafo o mistério sobre sua identidade.


Uma solução criativa é conceber um título que de certa forma não faça parte da história, que não indique um local, um personagem ou um elemento da história em si, mas introduza uma espécie de comentário externo que venha dialogar com o enredo e, sem desvendá-lo, possa enriquecê-lo de nuances. Alguns clássicos do conto de terror têm títulos assim, como "A volta do parafuso" (Henry James, 1898), "Oh, apite e eu virei até você, meu rapaz" (M. R. James, 1904), "Onde seu fogo jamais se apaga" (May Sinclair, 1922): títulos marcantes, cuja relação com a história é indireta e só pode ser avaliada após a leitura.


Exercício
Imaginemos um enredo-chavão: um carro quebra numa estrada rural à noite, o protagonista precisa pedir comida e dormida numa casa de gente estranha. No fim, fica-se sabendo que todos ali são fantasmas. Intitular o conto "A Casa dos Fantasmas" seria destruir o um por cento de surpresa que pudesse restar ao leitor. O uso de um nome próprio ("O Solar dos Queiroz") daria um pouco de clima e tornaria a situação minimamente mais realista. "O Candelabro Azul" pode se valer de algum detalhe ameaçador que o protagonista percebe. "A Escada do Porão" pode atrair a atenção para a existência de um segredo. Cada título muda um pouco o ângulo pelo qual o leitor entra no texto.

Fonte: Revista Língua Portuguesa
http://revistalingua.uol.com.br/textos/81/titulos-que-nao-entregam-262407-1.asp

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